9 de setembro de 2015

Sobre ter e não valorizar

Aviso: Este texto não é relacionado a livros, nem à séries, tampouco à músicas.

Você que está aqui pode pular para a próxima postagem ou até mesmo voltar outro dia. Porém quando criei o EC lá em 2010 (que nem EC chamava), a intenção era ter um espaço onde eu pudesse ser o meu "eu" de verdade, compartilhar meus pensamentos com esse mundão da internet que nem me conhecia (e muitas vezes fazer textões sentimentais sobre o Will, sim, meu namorado). Mas o assunto de hoje não é sobre corações "partidos", planos futuros ou as dúvidas comuns da adolescência.


Há mais ou menos um mês fiz um quiz do BuzzFeed que indagava se eu fazia parte da "classe privilegiada". Das 38 afirmações, marquei 22 e com isso o resultado foi de que eu tenho privilégios. Levei a discussão para dois grupos do whatsapp e um deles rendeu tanto que me fez ficar pensando (sim, mais de um mês pensando nisso).

Assim que vi o resultado, confesso que fiquei indignada e defini todo aquele questionário como subjetivo. Afinal, apenas o fato de eu ser identificada como branca já me colocaria uns bons pontos no quesito de vantagens. Na minha cabeça, isso não deveria ser perguntado, pois não faz diferença. O problema, e que eu demorei a perceber, é que faz sim. E muita.

Não sou a pessoa mais engajada em política, muito menos nas lutas do mundo afora (e esse mundo vivencio pela internet, na maior parte), porém é notável a quantidade de preconceito que existe. É só uma questão de colocar a mão na consciência e pensar que em uma disputa de emprego a balança pende pro lado "branco". Que estando numa rua deserta, não se sente tanto medo quando um branco se aproxima.

Outro ponto que o teste leva à reflexão é o fato de eu ser heterossexual. Eu nunca vou ter problemas em andar de mãos dadas com meu namorado, assim como não vou receber uma olhada de canto de olho quando o beijo.

E isso tudo me faz questionar o que há de errado com o mundo e com as pessoas (e me incluo nisso, não sou perfeita). A cada noticiário a gente vê a quantidade crimes de ódio que vem acontecendo, as próprias redes sociais estão sendo utilizadas para propagar o preconceito. É ameaça de morte por não concordar com o que o outro diz, como se fôssemos todos obrigados a viver sob uma única bandeira.

O problema maior é que nem sempre enxergamos tudo de bom que temos ao redor. Eu tenho a sorte de ter uma família completa, um teto para viver e ter tudo dentro do possível. Meu quarto pode ser "pequeno", mas é o suficiente para me abrigar (e ainda demorar umas três horas para ser limpo). Grande parte da minha estante é conquista do meu próprio esforço, juntando trocado para comprar livro. Eu tenho a sorte de ter pão francês todos os dias no café da manhã e da noite, um almoço com arroz, feijão e mistura, e por ter acesso a frutas e algum biscoito para beliscar durante o dia. Não precisei trabalhar para me sustentar, tudo isso devido aos meus pais, que mesmo em meio as dificuldades não deixaram a peteca cair.

E só nesse último mês é que me dei conta da imensidão que isso é. De como eu muitas vezes não valorizo. Sim, tenho sorte por ter os pais que tenho, pelo esforço que eles fizeram, e isso faz de mim uma pessoa privilegiada. No meu cotidiano tenho contato com quem não tem nem 10% disso, quiçá uma roupa para vestir no frio.

Disse hoje mesmo que "ando meio desistida das pessoas", mas se eu desistir, se todos desistirmos, nunca vai mudar. Seja dando bom dia para alguém na rua, oferecendo um sorriso ou uma palavra amiga, participando de uma campanha de agasalhos ou da entrega do sopão na sua cidade. Não entrando em milhões de brigas nas redes apenas "porque é chegado numa treta". Parece pouco, mas é capaz de fazer toda a diferença. É uma forma de conseguir partir desse mundo sabendo que ao menos eu fiz o possível para torná-lo melhor.