14 de março de 2016

Sobre After e a romantização dos relacionamentos abusivos

Há um bom tempo que estou para escrever esse texto, mas sempre faltou aquela inspiração para conseguir me expressar bem. Finalmente consegui colocar as palavras que há muito habitavam minha cabeça, então:


Comecei a ler After por conta dos muitos comentários que vi, positivos ou não. Disseram para mim que eu iria “amar odiar a história” ou “odiar amar”, coisas do tipo. Comentei na resenha que fiquei viciada com o enredo do primeiro livro. Porém, conforme fui avançando na série um problema me saltou aos olhos. O relacionamento de Tessa e Hardin está muuuuuuuuito longe de ser saudável. E pior ainda é ver a forma como ele é retratado no livro, como algo romântico (oi?).

Desde o início, Hardin foi um completo imbecil com Tessa. A autora tenta passar a ideia de que ele é um bad boy, revoltado com a vida e que não se importa com nada. E isso é verdade até certo ponto, mas não faz o menor sentido Tessa cair de quatro por ele, apesar de todas as humilhações que ela sofreu. E são tantas que se eu for parar para enumerar, capaz de sair um livro enorme só sobre isso.

Sabe aquele alarme que soa na cabeça quando você se depara com um relacionamento abusivo? A cada página que eu ia avançado, esse alarme se tornava mais e mais barulhento. Fica claro quando a narrativa alterna entre os pontos de vista, na forma como Hardin trata Tessa como posse. Porém, lá pelo meio do terceiro livro outro ponto se tornou claro para mim. Tessa poderia ser a vítima no caso, mas ela também fazia o papel de vilã.

Várias vezes ela utilizou os mesmos jogos com Hardin, teve a mesma postura possessiva. E isso é completamente doentio, gente. Ela parar e pensar que a vida não teria propósito sem estar ao lado dele. Deixar de lado seus planos, sonhos, para ficar com ele, como ela fez várias vezes. Ambos tinham atitudes ridículas para se afastar um do outro, mas sempre voltavam atrás. E tudo isso sob o plano de fundo de que aquilo é amor verdadeiro.

Daí eu paro e penso que este livro está sendo lido por milhares de garotas adolescentes. Que ainda não possuem o pensamento crítico completamente formado e vão achar super normal se um cara te tratar feito um cachorro, mas depois dizer que te ama. Estarão familiarizadas com situações hostis, humilhações públicas e achando que tudo se resolve na base do sexo.

No final da série existe um salto temporal, um amadurecimento por parte dos personagens. Porém, na vida real nem sempre é assim. Muitos relacionamentos como o deles terminam de forma trágica, é só olhar nas notícias. É errado dizer que “é só um livro”, “só ficção”, porque o que lemos nos molda. E mais errado ainda é tratar a situação como normal ou romântica. Pois um relacionamento baseado em mentiras, traições, humilhações e mais n coisas, passa longe de ser saudável.