4 de abril de 2016

[Resenha] Outro Dia - David Levithan

Autor(a): David Levithan
Editora: Galera Record
ISBN: 9788501106834
Páginas: 322
Ano: 2016
Skoob
Avaliação: 5/5 + ♥

Sinopse: Um dos mais inovadores autores de livros jovem adulto e o primeiro a emplacar uma trama gay na lista do New York Times, David Levithan retoma a sua mais emblemática trama em "Outro Dia". Aqui, a já celebrada — com várias resenhas elogiosas — história de "Todo Dia" é mostrada sob o ponto de vista de Rhiannon. A jovem, presa em um relacionamento abusivo, conhece A, por quem se apaixona. Só que A, acorda todo dia em um corpo diferente. Não importa o lugar, o gênero ou a personalidade, A precisa se adaptar ao novo corpo, mesmo que só por um dia. Mas embarcar nessa paixão também traz desafios para Rhiannon. Todos eles mostrados aqui.

Li este livro em inglês no ano passado e achei incrível ler pelo ponto de vista de Rhiannon. E como sou masoquista, solicitei o livro em português pra sofrer mais um pouco. O resultado foi ler em menos de 24h e ficar com aquela ressaca literária enorme e o coração partido novamente.

Rhiannon pode não ser como você, mas certamente existe alguém como ela na sua vida. Em Outro Dia existem duas fases dela, antes de A e depois. Admito que já agi da mesma forma que a personagem no início do livro, com essa necessidade de resolver os problemas de todos como se fossem meus. Ela faz ótimas reflexões e quando eu li, foi como se eu tivesse escrito aquilo em um diário.

Ela é forte (mais do que imagina) e é capaz de amar com todo o seu ser. Aceita quando não é correspondida com a mesma intensidade. E é aí que mora o problema. Esse acomodamento dela, talvez por medo de mudanças, de encarar o mundo sem estar se apoiando a alguém. Ela ama Justin por ela e por ele, e nisso ela esquece de si mesma. Falando por experiência própria posso afirmar para vocês que não é nada bonito.

É doloroso ver como ela se esforça para conseguir uma migalha que seja da atenção do namorado. E é excelente ver sua transformação durante o livro conforme A entra em sua vida. O mais legal é que as mudanças acontecem de forma natural e não são impulsionadas por ele (ela?), mas sim pela protagonista. Ela decide sair do seu lugar comum e descobre que o mundo não é um lugar tão assustador.

Eu gostei muito de ver a interação de Rhiannon com seus amigos. Em Todo Dia só temos pequenos vislumbres, mas aqui é excelente ver como eles a apoiam nas situações e até dão uns puxões de orelha. Rebecca é, sem dúvida, a minha favorita. Tem uma parte excelente em que ela dá um sacode na Rhiannon, mesmo que ela não tenha conseguido enxergar como foi importante na hora. A protagonista tenta justificar (mais uma vez) uma atitude ridícula do namorado e solta a frase "mas ele não me bate". E Rebecca dá o melhor discurso de todos, mostrando o quão padronizada é essa frase. Ela alerta para o problema da romantização de um relacionamento abusivo, onde muitas pessoas acreditam que é ok estar infeliz, que a pessoa que deveria te apoiar pode ser um babaca na maior parte do tempo, contando que não te bata.

Só quem passa por um relacionamento abusivo, quem está tão atado a outra pessoa que não sabe como é ter uma vida longe desta, sabe como é difícil. Quem está de fora muitas vezes não percebe, mas são as brigas constantes, o sentimento de não ser suficiente, as mil justificativas que são encontradas para os comportamentos. E por mais que um ou outro tente mostrar que aquilo é errado, nem sempre funciona. É algo que deve partir da própria pessoa e isso é o que acontece com a protagonista. Ela amadurece bastante ao longo da trama e isso é incrível de ver.

Nem preciso dizer que o final me destruiu por completo, mesmo que eu já soubesse muito bem o que iria acontecer. Mais uma vez Levithan trouxe uma história que me emocionou e abriu minha mente. Ele mostra que é possível amar além das aparências, mas acima de tudo deixa claro que é importante se amar primeiro. Todas as dificuldades colocadas entre A e Rhiannon indicam que amar não é fácil, mas se tivermos coragem e força somos capazes de conseguir.